A nuvem do Farol

Uma nuvem sempre aparece no alto de uma ilha em Arraial do Cabo/RJ. Mesmo com esse fato sendo de conhecimento dos nativos da região, o governo mandou construir um farol. Após alguns anos, teve que ser desativado por causa da falta de visibilidade.

Vista de Arraial do Cabo com nuvens a partir do Farol Velho. Imagem: André Dias/TV Globo/Reprodução
Vista de Arraial do Cabo com nuvens a partir do Farol Velho. Imagem: André Dias/TV Globo/Reprodução

Os rochedos de Arraial sempre foram muito arriscados para as embarcações. Dentre os naufrágios, estão o das fragatas Dona Paula (1827) no costão da Ilha dos Franceses e Thetis (1830), embarcação britânica em rochedos na enseada da Ilha de Cabo Frio. Neste último, foram afundados quatro toneladas em ouro, prata e impostos, além de da morte de 28 homens. No ano seguinte, uma operação recolheu as riquezas e destroços.

Assim, o governo optou pela criação de um farol no topo da ilha mais alta da cidade – na época, território de Cabo Frio. Um farol é uma estrutura elevada, geralmente uma torre, equipada com um potente aparelho ótico dotado de fontes de luz e espelhos refletores, cujo facho é visível a longas distâncias. São instalados junto ao mar, na costa ou em ilhas próximas, tendo o objetivo de orientar os navios durante a noite.

As obras do farol começaram em 1833, no ponto mais alto da Ilha do Cabo Frio (-22.9956788,-41.9863072) – popularmente conhecida como Ilha do Farol. A população local alertou que não era uma boa ideia devido à constante presença de “neve” – forma como chamavam a nuvem que se formava no alto desse morro. Mesmo assim, a obra seguiu, feita por escravos sob comando do major português Belegard, e foi entregue em 1836.

Com o início da operação, constatou-se que realmente a nuvem ficava no caminho do feixe de luz. No mesmo ano da inauguração, a Marinha apontou em relatório que, mesmo com o farol aceso, isso tinha “pouco efeito, por não ser visto à grande distância”. Acreditava-se que os vidros coloridos, trazidos da Inglaterra, tinham uma espessura muito maior do que deveria, causando a absorção de boa parte da luz. Assim, o relatório recomendou abandonar esses vidros e adaptar um mecanismo de rotação no candeeiro, de modo que a luz do farol pudesse aparecer em “flashes” e se distinguir ainda mais na costa.

Ainda sem êxito com a atualização do equipamento, a liberação de umidade pela mata ao redor foi apontada como causa da redução de visibilidade do farol. Foi ordenado o desmatamento de parte da ilha, mas mesmo assim a nuvem continuou se formando no local.

Em 1839, outro naufrágio aconteceu na região, com o veleiro Wizard. Em outro relatório da Marinha (1844), constatou-se que o farol jamais poderia ter sido construído no local devido à constante presença de névoa.

Farol Velho: Foto: IPEAM
Farol Velho: Foto: IPEAM

Somente em 1861 que foi inaugurado um novo farol na mesma ilha, mas em uma altitude menor e na costa sul. O Farol Novo tem uma torre com 16 metros de altura e um feixe de luz que pode ser visto a mais de 90 km. Construída em um costão rochoso (-23.0135557,-42.0011429), funciona até hoje.

Atualmente, sabe-se que a nuvem é formada devido ao efeito orográfico. A evaporação da água do mar ao redor fornece a umidade para a formação da nuvem. O morro, que tem 395 metros de altitude, serve como forçante para que o ar, ventando do mar para o continente, suba. Quando o ar sobe, ele expande e esfria. Isso favorece que as moléculas de vapor d’água se juntem sobre partículas sólidas suspensas no ar, conhecidas como núcleos de condensação, e formem gotículas de nuvem.

Caso exista uma camada de ar estável acima da nuvem, ela impede que o ar suba naturalmente ou dissipe. Assim, forma-se uma camada de ar saturado com umidade abaixo dessa camada estável, favorecendo a formação da nuvem. A instabilidade atmosférica permite a subida do ar quente e úmido da superfície para alimentar verticalmente as nuvens, que podem ficar densas o suficiente para gerar chuva. Já em um ambiente estável, a convecção do ar é inibida, favorecendo um tempo aberto. Essa é a explicação para um dito popular local que associa a formação dessa nuvem a tempo ensolarado na região.

Pesquisadores do IPEAM (Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira) investigaram a frequência da formação de nuvem sobre no alto da Ilha do Farol. Através de uma câmera acoplada a um computador “single board”, foram feitas imagens do morro para constatação visual da ocorrência ou não de nebulosidade. A altura do nível de condensação por levantamento (NCL), que indica a altura em que ocorre a formação da base da nuvem, foi calculada em cada caso usando dados de temperatura e umidade. Concluiu-se que o NCL estava abaixo de 390 metros (o suficiente para cobrir o farol) em 60% dos dias entre outubro e março (período chuvoso) e pelo menos em 40% para o restante do ano.

Essa história é contada em reportagem da jornalista Fabiana Lima, Especialista em Clima e Energia, Variabilidades e Impactos pela UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro). Ela compara a formação da nuvem do farol como um “radar natural” que indica a formação ou não de chuvas na região. A reportagem pode ser vista na matéria do g1 (Nuvem que aparece sempre no mesmo lugar vira lenda em Arraial do Cabo) e no vídeo a seguir:

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