Uma nuvem sempre aparece no alto de uma ilha em Arraial do Cabo/RJ. Mesmo com esse fato sendo de conhecimento dos nativos da região, o governo mandou construir um farol. Após alguns anos, teve que ser desativado por causa da falta de visibilidade.

Os rochedos de Arraial sempre foram muito arriscados para as embarcações. Dentre os naufrágios, estão o das fragatas Dona Paula (1827) no costão da Ilha dos Franceses e Thetis (1830), embarcação britânica em rochedos na enseada da Ilha de Cabo Frio. Neste último, foram afundados quatro toneladas em ouro, prata e impostos, além de da morte de 28 homens. No ano seguinte, uma operação recolheu as riquezas e destroços.
Assim, o governo optou pela criação de um farol no topo da ilha mais alta da cidade – na época, território de Cabo Frio. Um farol é uma estrutura elevada, geralmente uma torre, equipada com um potente aparelho ótico dotado de fontes de luz e espelhos refletores, cujo facho é visível a longas distâncias. São instalados junto ao mar, na costa ou em ilhas próximas, tendo o objetivo de orientar os navios durante a noite.
As obras do farol começaram em 1833, no ponto mais alto da Ilha do Cabo Frio (-22.9956788,-41.9863072) – popularmente conhecida como Ilha do Farol. A população local alertou que não era uma boa ideia devido à constante presença de “neve” – forma como chamavam a nuvem que se formava no alto desse morro. Mesmo assim, a obra seguiu, feita por escravos sob comando do major português Belegard, e foi entregue em 1836.
Com o início da operação, constatou-se que realmente a nuvem ficava no caminho do feixe de luz. No mesmo ano da inauguração, a Marinha apontou em relatório que, mesmo com o farol aceso, isso tinha “pouco efeito, por não ser visto à grande distância”. Acreditava-se que os vidros coloridos, trazidos da Inglaterra, tinham uma espessura muito maior do que deveria, causando a absorção de boa parte da luz. Assim, o relatório recomendou abandonar esses vidros e adaptar um mecanismo de rotação no candeeiro, de modo que a luz do farol pudesse aparecer em “flashes” e se distinguir ainda mais na costa.
Ainda sem êxito com a atualização do equipamento, a liberação de umidade pela mata ao redor foi apontada como causa da redução de visibilidade do farol. Foi ordenado o desmatamento de parte da ilha, mas mesmo assim a nuvem continuou se formando no local.
Em 1839, outro naufrágio aconteceu na região, com o veleiro Wizard. Em outro relatório da Marinha (1844), constatou-se que o farol jamais poderia ter sido construído no local devido à constante presença de névoa.

Somente em 1861 que foi inaugurado um novo farol na mesma ilha, mas em uma altitude menor e na costa sul. O Farol Novo tem uma torre com 16 metros de altura e um feixe de luz que pode ser visto a mais de 90 km. Construída em um costão rochoso (-23.0135557,-42.0011429), funciona até hoje.
Atualmente, sabe-se que a nuvem é formada devido ao efeito orográfico. A evaporação da água do mar ao redor fornece a umidade para a formação da nuvem. O morro, que tem 395 metros de altitude, serve como forçante para que o ar, ventando do mar para o continente, suba. Quando o ar sobe, ele expande e esfria. Isso favorece que as moléculas de vapor d’água se juntem sobre partículas sólidas suspensas no ar, conhecidas como núcleos de condensação, e formem gotículas de nuvem.
Caso exista uma camada de ar estável acima da nuvem, ela impede que o ar suba naturalmente ou dissipe. Assim, forma-se uma camada de ar saturado com umidade abaixo dessa camada estável, favorecendo a formação da nuvem. A instabilidade atmosférica permite a subida do ar quente e úmido da superfície para alimentar verticalmente as nuvens, que podem ficar densas o suficiente para gerar chuva. Já em um ambiente estável, a convecção do ar é inibida, favorecendo um tempo aberto. Essa é a explicação para um dito popular local que associa a formação dessa nuvem a tempo ensolarado na região.
Pesquisadores do IPEAM (Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira) investigaram a frequência da formação de nuvem sobre no alto da Ilha do Farol. Através de uma câmera acoplada a um computador “single board”, foram feitas imagens do morro para constatação visual da ocorrência ou não de nebulosidade. A altura do nível de condensação por levantamento (NCL), que indica a altura em que ocorre a formação da base da nuvem, foi calculada em cada caso usando dados de temperatura e umidade. Concluiu-se que o NCL estava abaixo de 390 metros (o suficiente para cobrir o farol) em 60% dos dias entre outubro e março (período chuvoso) e pelo menos em 40% para o restante do ano.
Essa história é contada em reportagem da jornalista Fabiana Lima, Especialista em Clima e Energia, Variabilidades e Impactos pela UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro). Ela compara a formação da nuvem do farol como um “radar natural” que indica a formação ou não de chuvas na região. A reportagem pode ser vista na matéria do g1 (Nuvem que aparece sempre no mesmo lugar vira lenda em Arraial do Cabo) e no vídeo a seguir: